Que minha mãe não leia, AMÉM!

Daí você era a Santinha da classe, daquelas que sonham com um Conto de Fadas. Fez vinte, mudou o cabelo e entrou na faculdade. Conheceu Jack Daniel’s e ele virou seu novo Príncipe Encantado.

Linha imaginária (>18)

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Não era brincadeira, afinal. Ele me convidara e, ao contrário do que tinha imaginado, abrira a porta. E não só. Não notou meu cabelo vulgarmente abusado pela escova grossa e o calor absurdo do secador e da prancha, além do meu batom vermelho seco borrado. Nem ao menos que deixei as botinas velhas e calcei Ankle boots ou que mudei a cor das unhas negras bem pintadas por uma manicure ensandecida.

Não notou meus cílios postiços, meu vestido colado, meu sutiã de renda, meu bordado. Ignorou horas e horas de estica e puxa, de choro diante das roupas amarrotadas, dos sete dias de alface sem azeite, sem nada, sem graça. Não disse uma palavra. Não me comeu com os olhos como disse a vendedora de sapatos. Não reparou que treinei o rebolado, o sorriso vadio e a malícia sussurrada.

Me segurou pela cintura, apenas. Carregando-me para dentro, arrastando-me pelos dentes travados nos meus lábios. Mordia-os, sugava-os, lambia-os. E antes mesmo de um boa noite, preenchi o corredor do prédio velho com o que lembrou um grunhido esquisito, mas declarado. Esclarecedor para não dizer estarrecedor. O que pensaria a velhinha do apartamento ao lado, quase que participando de uma tarde foragida entre as paredes finas de um motel barato? Gelei, mas logo reaqueci.

Foda-se a velha.

O beijo, que era o nosso primeiro, era um tanto quanto apressado. De uma urgência que vinha debaixo. Pude sentir quase que no primeiro minuto o duro entre as coxas. Não era romântico nem nada e nem deveria ser, correto? Foi o trato desde o início. Faríamos sexo e, as vezes, diríamos “olá”. Pareceu-me justo para ambas as partes.

Suas mãos, descontroladas, há tempos já tinham deixado os meus cabelos e a nuca. Fechei a porta com os saltos, já com as costas nuas.

Não via seus movimentos rápidos que me despiam. Sentia o movimento nas pernas, os puxões e o lado direito do pescoço dolorido. O corpo, ardendo, funcionava abalado como o de quem já bebera entre duas e três caipirinhas. Mesmo que sóbrio, solto e sem reflexo.

O apartamento em um silêncio inócuo tornava o prazer um tanto mais aguçado. Podia ouvir sua respiração cada vez mais pesada, os pequenos passos e o porta-retratos caindo. Ouvia mais do que sentia. Era um prazer cego e sem tato. Minha pele na parede mal pintada. Estávamos no breu e na escuridão dos pensamentos. Fora a primeira vez que conseguira fechar os olhos e não ver nada. Ouvia-o apenas. Acariciava-o com a língua e os braços.

Não queria, mas vez ou outra quebrava a guerra silenciosa com minha voz esganiçada. Meus barulhos delicados. Íntimos. Temia soltá-los. Era deixar-me desarmada. E ninguém anda em um campo minado sem armas. É arriscado demais. Segurava-os na garganta até.

Gemia.

Num único passo, estávamos os dois com os mamilos a mostra. Os dele, de tão alto, quase na altura dos meus lábios. Quis tocá-los. Mas ele engoliu os meus primeiro. Sufocou quase. Sufocou-me, claro. Perdendo o controle e as unhas falsas nas costas largas. Deixaria-o com marcas. Também usava os dentes, dessa vez nos ombros, no umbigo. E, com mais cuidado, descendo.

Mordiscava.

O corpo era bronzeado e magro. Encaixava mais do que imaginei no meu. Era singelo, mas carregava uma força que não sei de onde vinha, só sabia que existia. Sentia. Arrancou meus óculos grandes- como não tinham quebrado ainda?!

Quebraram.

Os seios já cansados faziam o corpo gritar por mais. Em outros lugares. Colocou-me sentada na pia da cozinha. Ainda não dissera nada. Deu-me uma taça de vinho já posta. Devolvi-lhe a taça e bebi na garrafa. Estava gelada como gostava. Esfriou a boca, esquentou ainda mais o trajeto.

Fraca para álcool, ria do tudo, do nada e do mármore gelado. Estranho nunca ter-lhe ouvido a voz que não fosse falando para toda uma turma de imbecis. Arrancou-me os laços que faltavam. Deixou-me completamente nua. Agradeci pelo alface e envolvi-o com as pernas suadas.

Eu já latejava, não queria mais brincar de pega-pega. Mesmo em êxtase, me aborreci. Muita história, muito lenga-lenga. Estremeci. Em meio segundo minhas pernas estavam trançadas em seu quadril que se movimentava sem me deixar ver a que passo, ao mesmo tempo em que seus dedos encontravam meus caminhos. Estava completamente perdida. Entregue inteira. Isso era um erro. Uma delícia de erro. Estava molhada. Seria fácil.

Jogou-me na cama e entre a apneia de vê-lo finalmente por inteiro e o ápice, pude apenas tentar manter-me viva. O coração puxava mais sangue do que podia, a respiração parecia muito mais trabalhosa do que depois de uma maratona da Barra à Copacabana. Não tinha mais noção de horas ou décadas. Das vezes e mais vezes em que ele me jogara de um lado para o outro, experimentando jeitos, escolhendo ângulos.

Vi que várias vezes ele rira da brincadeira que inventara. Brincava de mim. Comigo ali, participante e, mesmo assim, boneca. Assistia, como que de longe, mesmo que do avesso. Podia me ver sem espelhos. Podia vê-lo sem olhos. Sentia suas águas, riachos. Seu cabelo liso também molhado. Quando encharcado, cheirava a mel.

Fiquei rouca do silêncio que ele me fez suportar durante cada segundo. Ele respirava e mais nada. Mas respirar me bastava. Ofegava. E era denso; mostrava que gostava. Não precisava de juras. De frases batidas. De clichês de filmes dublados. Expandia-se em mim. Entregou-se também, como não?!

Ao cansar do jogo, com as minhas pernas já bambas, analisei seu traço do queixo másculo. Fumava no quarto intoxicando-me sem nem ao menos perguntar se me importava. Fumei seu tabaco sujo sem querer. Mas querendo, por preferir ficar à ir. Não queria ir.

Queria que me desse sua blusa rasgada de quando ainda sentava no banco da faculdade. Queria dormir junto, mesmo com a fumaça. Queria preparar-lhe panquecas, mesmo sem nunca ter quebrado ovos. Queria requentar-lhe uma pizza da semana passada e tomar o resto do vinho com o sol já nos lençóis, secando o úmido.

Enrosquei-me no travesseiro gasto, mostrando que não iria se não me obrigasse. Mas ele estava ainda na metade do último trago e eu brigando contra o sono.  Sabia que ele estava na dúvida se satisfeito ou não. Tentei manter-me acordada. Tive um breve  sonho de assistir a um filme em preto e branco com ele na TV da sala. O tédio me comia enquanto dividíamos a pipoca. Devoramo-nos ainda nos trailers.

Senti um braço me aproximando de um cobertor humano quente. Era ele. Arrumou meus cabelos enquanto sussurrava boa noite. Era uma voz que ressoava, era infinita. E seu tom duro despertou-me no ato. Mas preferi não me mover, não dar margem para que fugisse. Podia conter-me com o eco do que disse. Afinal, dizer já era ultrapassar limites, principalmente acompanhadas as palavras por carícias fraternais.

Não sei ao certo se fora parte do sonho, do vinho ou se de fato ele ultrapassou nosso Meridiano de Greenwich, mas se deu o passo, nosso acordo fora  quebrado. E, assim sendo, não seria contra as regras ter me apaixonado.

Nai Braga

 

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This entry was posted on 22 de Abril de 2014 by and tagged , , , , .

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