Que minha mãe não leia, AMÉM!

Daí você era a Santinha da classe, daquelas que sonham com um Conto de Fadas. Fez vinte, mudou o cabelo e entrou na faculdade. Conheceu Jack Daniel’s e ele virou seu novo Príncipe Encantado.

Marina

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Relembrar os momentos que passaram juntos, antes de pegar no sono, sozinha em sua cama sempre meio vazia- mas também com sentimentos em excesso-, fizera com que acordasse ainda mais disposta e cheia de razão. Finalmente seu sonho seria realizado, abençoado pela maresia fresca do mar de Ilha Bela.

Será que ele lembraria que fora diante da imensidão do mar que jurou seu amor pela primeira vez? Ele dissera, com sua voz ainda rouca de sono numa manhã clara, que estaria ao seu lado. Foram exatas as palavras: sempre e sempre.

Elas ecoavam como se ditas dentro de uma conchinha rara. Podia ouvi-las às vezes. Pôde ouvi-las agora. De novo e mais uma vez. A ausência do silêncio a atordoava. Temia perder o controle e seria fácil. Afinal, sempre tivera que lidar com as pernas bambas diante dele. O estômago apertava um pouco, a bexiga descontrolava, a voz esganiçava- um verdadeiro circo de horror. Teve aulas de autocontrole.

Era difícil esquecer-se da diversão… Cozinhavam juntos sempre que podiam: salmão com alecrim e alcaparras, salada caprese, bolo de rolo e mais, gratinavam. Gratinavam tudo que fosse comestível e não estivesse com cheiro de guardado-há-três-décadas-em-um-potinho-de-sorvete-no-fundo-da-geladeira. Cantavam Amy também, só para espantar o tédio dos domingos de chuva ou para varrer um mal estar qualquer, desses do dia-a-dia que acontecem em toda família real. Seriam uma família, então?

Além disso, faziam amor. Inúmeras vezes. De inúmeros jeito e trejeitos e gostos e…

E ele- ela ainda mergulhada nos versículos antigos- gostando da brincadeira, entre mordiscadas e beijos intermináveis, jurara um futuro próximo eternizado num tapete de margaridas no paraíso que criaram para si- a tal praia em que se conheceram.

Passarinhos cantarolariam misturando-se a voz dos dois que diriam ao mesmo tempo o “sim”. Afinal, nenhum dos dois tinha interesse em se entregar primeiro. Temiam gritar ao vento a verdade que transbordava por dentro, por mais que a dissessem, no pé do ouvido, aos sussurros, basicamente sempre que acordavam de bom humor. E, se o fizessem diante de todos, corriam o risco do outro dar meia volta volver. Esquecer-se de pular no abismo logo atrás e do que poderia ser. Fugir do conto de fadas escrito com a ponta do dedo na areia molhada.

Respirou ainda mais fundo como se buscasse pó de coragem no ar, calçou suas sandálias bordadas com esmeraldas falsas e fechou sozinha, como havia de ser, o zíper do vestido esvoaçante e caro. Os detalhes eram mínimos, mas juntos faziam-na uma noiva perfeita. O decote acentuado deixava-a mais segura e o florido discreto aliviava as rugas tensas da testa. Os cachos cobre corriam por seus ombros magros, destacando ainda mais a palidez de sua pele de porcelana. Conferira pela última vez o batom nude e as pálpebras marcadas por um azul denso-infinito.

Andava de um lado ao outro, ora estalando os dedos, repassando os passos, ora alisando a estante cheia de porta-retratos com as fotos artísticas que tirara ao longo dos últimos dois anos. Trabalhara em tantos casamentos que já estava acostumada ao exato momento em que duas pessoas tomam a maior decisão de suas vidas em meio segundo, como se fosse fácil- um imenso elefante branco. O começo de tudo.

Ela estava, no melhor dos julgamentos, inquieta. Acrescentara, já com as chaves na mão, o gloss cintilante à maquiagem feita com a precisão de um neurocirurgião experiente. Diante do espelho, notou seus olhos fixos brilhando. Estava, enfim, deixando de lado a escuridão dos dias que seguiram sem rumo até ali. Nunca se arriscara tanto- as mãos tremiam um pouco.

Dirigia seu carro vinho-na-sombra-vermelho-no-sol com os vidros abertos para o último reencontro com ele antes da assinatura dos papéis oficiais. Só de pensar na palavra “oficial”, sempre como se um sessentão gordo e capitalista estivesse falando por ela, seu coração congelava por tempo suficiente para uma quase morte com direito ao filme meia boca ‘Que porra você fez da sua vida’. Não gostava e o coração, de volta à ativa, pulsava, como se quisesse uma história diferente para contar. Uma reviravolta.

Inspirava todo o ar fresco que podia antes que, de fato, a vida circulasse para bandas distantes de todas as outras que já percorreram. A vista dali era incrível- ela sabia- mas nada que pudesse apreciar. A boca estava muito seca para enxergar um palmo que fosse diante do próprio nariz arrebitado e já agradeceria se não capotasse ou atropelasse um cachorro sem dono na estrada.

Vacilou ao chegar e se deparar com tantas flores mosquitinho brancas e azul-lilás. Era um mar delas, em cestas de vime, baldes de madeira, arranjos de mesa… Distraiu-se com os bem-casados dispostos em um armário de madeira maciça. Click. As tortinhas de maracujá, logo ao lado, com amoras em cima, salteadas com açúcar cristal.

O bolo rústico, à direita, tirou-a do sério por estar tão delicadamente perfeito. Era enorme, para começo de conversa, e suas camadas eram divididas ora por rosas brancas, ora por grossas pinceladas de glacê que ultrapassavam as beiradas da massa com ar de desajuste e sofisticação. Click. No topo, um casal de pombinhos brancos a encaravam, despejando felicidade a qualquer um que simplesmente passasse- o mais desinteressado que estivesse. Revirando os olhos como quem diz “dane-se”, ela passou o indicador no glacê do segundo andar, disfarçando tão bem quanto um esquilo esfomeado. Comemorou limpando os lábios. Decididamente, era o melhor que já tinha experimentado. Quis chorar, mas não podia. Ao menos não ali. Não tão cedo. Click.

Circulou pelo hall mais uma vez, tomando uma taça de água fresca que arrancou de um pinguim magricela, e sentiu como se já conhecesse tudo o que seu cérebro agitado registrava naquele momento. Já tinha estado naquela mesma festa, cercada das mesmas flores e cores. Tudo fielmente copiado de seus santos pensamentos. Sim, tudo ali fora escolha dela. Deles, na verdade. Passaram dias pesquisando, ligando para fornecedores, discutindo detalhes bobos que eram revistos e mudados de cinco em cinco minutos. A realização, enfim.

As pilhas de macarons cereja e azul anil gritaram por sua atenção, convidando-a para um brinde. Mas uma voz a despertou do outro lado do salão. Click. Era o noivo e sua risada alta. Era o noivo e seu gingado. Era ele…

Abandonou a água e virou outra taça, agora de champanhe. Vê-lo no deck, trançando as mãos suadas, nervoso, deixou-a tonta no ato. À vontade em uma bermuda branca, deixava o sol iluminar ainda mais os pelos loiros das pernas fortes. Seu ar de garoto de praia a fez perder a noção de tempo e espaço- e quase a coragem. Brincava com ela, esquecendo-se que, de fato, era real e que doía.

Ele ia e voltava quando lhe convinha, é verdade. Mas a amava, ele sempre dizia. Escrevia na geladeira até. E, se fosse mentira, não teria marcado a tal data. Ou aplaudido quando experimentara o vestido branco na sua frente, depois de carinhos na cama.

Um calor absurdo a fez voltar ao presente para, em uma queda livre, em meio segundo, voltar às profundezas cinza.  E de como a fez querer cortar os pulsos ao ouvir o som ensurdecedor dos dois sorrindo dentro do quarto. Riam dela, era possível.

Riam dos planos que fizera. Do álbum de recordações com páginas em branco. Eles poderiam preenchê-las, se quisessem, riscando o nome dela da capa com caneta bic.

Estavam cercados dos presentes de casamento. Embrulhos cor de rosa e dourados. Fitas e laços. As panelas, as taças de cristal e todo o resto. Ele a traíra diante dos cartões escritos à mão. Desejavam uma vida de amor, cumplicidade e carinho durante toda uma vida. Como isso pôde acontecer com ela- ela pensava ainda, cerrando os dentes e os olhos- como pôde?

Os pulsos ainda estavam inteiros, mas os ouvidos sangravam. Não teve forças para abrir a porta de madeira. Não queria dar vida à imundice que ouvia atrás da porta, escondida, como se não estivesse na própria casa. Preferiu espancar a porta com murros secos. Interrompera a lua de mel antecipada do noivo com uma Maria Ninguém, uma garota de bar. Mas agora ela tinha um nome. Era Giovana. E estava escrito em letras formais ao lado do dele, João, em um convite chique.

Ele correu pelo corredor do prédio fechando as calças, com os fios da franja suados. Enojou-a tanto que, para não ouvir suas palavras tortas e a respiração ritmada, com ela dentro e ele fora do elevador, gritou. Gritou o quanto pôde até a liberdade da rua. Correu com os olhos inchados, o nariz vermelho e as lágrimas em correnteza até onde as canelas pouco treinadas conseguiram levá-la.

E bastaram poucos dias para que a fragilidade dos seus sentimentos sobressaísse em suas fotos, cada vez mais delicadas. O seu hobbie virara uma espécie de fuga para a sobrevivência. Parecia capturar os detalhes que corriam por debaixo da pele. Não retratava apenas sorrisos ou olhares vazios. Tratava-se de carne, do que se misturava ao sangue, dos dentes, da pulsação dos cílios e do coração. Cada revelação, feita em um ritual de luz, amor e vinho tinto, traziam à tona muito mais do que registros. Elas eram bordadas com histórias e simbolismos.

E, querendo, por instinto, livrar-se de si mesma, mergulhou mais e mais nas impressões que tinha do que estava do lado de fora. Largou seu emprego arranjado, encheu os pulmões de liberdade e fez sua primeira exposição na mansão de uma amiga de anos. Dali em diante, seu telefone não parou de receber elogios, novos contratos e convites. Passou os dois últimos anos em Nova York.

Ele, por outro lado, nunca ligou para dar explicações ou tocou sua campainha. Não mandou flores e nem compôs uma música. Achou, por pura preguiça, mais fácil ficar com o passarinho ainda enjaulado. Não quis se dar ao trabalho de recapturar o fugitivo.

Abraçou o que estava ao seu alcance utilizando sua técnica do menor esforço possível multiplicado pela vontade de não ter que encarar os seus defeitos nos olhos de quem lhe confia a mão para atravessar a rua- e acompanhá-lo por toda uma vida.

Ele fugiu dela, essa é a verdade. Fugiu como quem, no escuro, sente medo do bicho-papão. E, se o foi sem querer no passado, era isso que ela queria, então. Comprometeu-se com essa vontade: seria sua Cuca, sua assombração.  Click.

Ele, virava e mexia, sorria para algum convidado careca que logo chegava, se acomodava nas cadeiras de madeira clara. Nenhum que já tenha visto- notara. Os pais dele não estavam, assim como Jack e Marcelo, seus melhores amigos desde mil novecentos e sempre.

O sorriso dele era tão perturbador que a fazia querer correr para abraçá-lo, beijando sua testa, nariz e boca em uma ordem aleatória e frenética que faria com que parecesse bêbada ou desesperada. Mas não. Preferiu juntar seus pedaços mais uma vez e continuar. O asco voltou à boca.

Pôde vê-lo caminhar até o altar, fazendo caretas e sinais com as mãos para os bancos já cheios. Mostrava-se tranquilo e divertido, mas ela sabia que não. Seu olho direito estava piscando mais do que o esquerdo e já o tinha visto coçar a orelha duas ou três vezes. Sinais claros de que preferia se jogar ao mar e nadar até onde pudesse do que vestir a aliança dourada no dedo. Ela sorriu, gargalhando por dentro. Será que Giovana saberia distinguir seus gestos habituais dos que feitos por pura irritação e desespero?

Com a câmera na frente do rosto, desfilou pelo corredor principal, com pisadas firmes como a de uma bailarina na guerra. O sol estava gelado para a época do ano e por isso parecia ainda mais perfeito. O dia estava incrível para um casamento. A iluminação…

A Ave Maria interrompeu seus pensamentos e ela, apenas a dois passos de João. Click- ele sorria um sorriso aberto, posando para a foto. As portas se abriram. Era a oportunidade perfeita para ela que, imediatamente, afastou a câmera do rosto revelando suas maçãs impecáveis e as covinhas angelicais. Encarou-o com olhos de águia enquanto a noiva caminhava sem os principais holofotes.

Os dentes brancos dele desfaleceram- click- dando lugar às rugas de expressão misturadas ao medo do constrangimento. Perdera a cor e ela sentiu-se ainda mais poderosa.

Ajoelhou-se diante dele- ele queria morrer, ela notara, suplicando com os olhos para que não gritasse, que fosse embora. Ele queria enxotá-la com chutes, no mínimo. Ou simplesmente pedia socorro? Mas- click- era apenas mais uma foto; dessa vez, das mãos dele, unidas, como se cheias de esperança para encontrar as de sua amada. “Filho da puta, essa ficou ótima”- ela pensou. Imagens às vezes enganam tanto quanto seres humanos.

O juiz de paz falava e falava, mas em seu mundo afônico sobrava-lhe os clicks de sua câmera. João, de frente para sua futura esposa, voltou os olhos para a fotógrafa.  Era linda de verdade… E era dele. Sempre fora e, talvez, mesmo depois de tudo ainda fosse. Ela estava diferente, ele sabia. Era forte ou não teria chegado até ali. Fora buscá-lo. Levá-lo de volta para o aconchego de Copacabana. Ele chorava. Click.

O coração dela batia tanto quanto as ondas e, como espuma, seus pensamentos se formavam e multiplicavam em sua cabeça. “O que diabos ele está fazendo?”.

As juras começaram sem que eles dois percebessem e ela, em um golpe de azar ou de sorte, sibilou um curto “adeus” ao passo que ele disse “não aceito”.

Não aceitava as duas. Nem o fim e nem o começo.

Naianne Maciel

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This entry was posted on 19 de Junho de 2015 by .

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